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Um concertão sem pastéis
Texto de João Gobern, Fotos de Pedro Múrias
Se7e, 10 de Junho de 1985
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Duas horas de música e quatro mil aos pulos - os Marillion excederam todas as expectativas, anulando os espectros de passado (leia-se "a história doe Genesis") e conseguindo um concerto que só é possível com uma banda na curva ascendente. Alguém duvida?

Poucos terão sido os grupos que até hoje passaram por Portugal a dispôr de um público tão animado mas, ao mesmo tempo, tão conhecedor da obra "em expossição" - com os Marillion, o título da canção ou os seus primeiros acordes chegaram ao "povo" para recuperar o entusiasmo adormecido desde... o fim do tema anterior.

Essa foi possivelmente a primeira grande surpresa de Fish, mais de metro e noventa de tamanho, com o concerto português: no final de "Assassing" cantada a plenos pulmões pelos quatro mil que lotavam até "ao inferno" o Pavilhão de Belém, o concerto estava ganho. Restava saber como reagiriam os saltitantes aos momentos mais moderados no andamento, às passagens com que os Marillion iriam recuperar a "filigrana" sonora de outros tempos (Genesis infalivelmente).
Mas "Cinderella Search" e "Jester's Tear" fecharam a questão, uma vez que a segunda figura de grupo, o provável autor de grande parte das melodias, o guitarrista Steve Rothery, também caiu nas boas graças do público. E fez questão de mostrar o seu jogo de mãos, quase sem pedais, ao longo de todo o concerto, mantendo inevitáveis diálogos com as teclas de Mark Kelly e deixando o ritmo a Pete Trewavas (baixo) e a bateria de Ian Mosley, um supercraque do género.
"Quem me dá um cigarro"
Não espantou por isso o acompanhamento prestado a "Punch & Judy" - o primeiro "hit-single" da banda - e, de imediato, a "Jigsaw", ainda e sempre uma grande canção. Fish corria todo o palco, fazia o jogo de pernas de um qualquer "boxeur", recuperava a linguagem cénica da geração perdida, simulando arrancar o coração e atirá-lo na direcção da participativa audiência.

Depois de "Emerald Lies", outro pequeno show de Mark Kelly, Fish chegou mesmo a virar-se para a frente do palco, pedindo: "Could I possibly have a cigarette?" Deu para escolher e para ganhar balanço, antes de entrar na prova final: a "première" de metade do novo album, de seguida e sem tempos mortos. "Misplaced Childhood" é no dizer dos seus próprios autores, um "concept" para os anos 80 e foi "arriscado" em Belém - se bem que contando com o trunfo "Kayleigh", o novíssimo single que está em segundo lugar em Inglaterra, a "suíte" resistiu perfeitamente aos apetites rítmicos de um sector do público. E ficou a vontade de conhecer o LP, lá isso ficou... a julgar pela amostra.
"Grand finale"
Bom, os testes estavam todos feitos: os Marillion tinham conseguido sobreviver aos vários espectros do passado, tinham mostrado a apetência de um espectáculo que fizesse da técnica aquilo que ela é realmente (um auxiliar...), tinham exibido um querer e um sentido de palco que ainda chegam para distinguir os que começam e não sabem, os que começam e já sabem o que sentem, e os que já acabaram e não deram por isso. Tinha sido um espectáculo a cem por cento, sem truques de "truta"...

Restava então a componente do prazer, faltava perceber se o grupo de Fish teria ou não a sensibilidade para chegar aos "brindes" que toda a gente queria. Até à primeira saída de palco, "Incubus" e "Fugazi" serviram para aquecer ainda mais os ânimos, todos virados para o que se ambicionava ser uma "história interminável".

O primeiro encore foi o melhor momento da noite, pelo texto, um dos grandes poemas do desespero dos 20 anos, por muito que isso custe a alguns cultivadores do "livro único" - e pelo contexto - Fish encena o papel de um jovem combatente, erguendo o pé do microfone como uma metralhadora e "disparando" ao compasso da bateria, "Forgotten Sons" é, como já aqui se tinha escrito, uma pequena ou média "declaração de voto", superada em palco... E chegou o "grand finale": após novo abandono, "Garden Party" e "Market Square Heroes" (as últimas são as primeiras...) mais não fizeram do que confirmar que não havia só competência e "savoir-faire", que há nos Marillion uma alma e, acima de tudo, que não é o público dos 30 anos (o famigerado "público dos Genesis"...) que acredita neste grupo. E que o vai ver assim, "com o risco da própria vida"...

Para uns, terá ficado a imagem de "uma banda de heavy-metal com algumas possibilidades". Para outros, "um pastiche dos Genesis levado às últimas consequências". Por mim devo confessar que os Marillion teriam seido uma grande e grata surpresa, se não conhecesse os seus discos.

Do concerto vale a pena reter que não houve "pastilhas" nem "pastéis", que o grupo conseguiu respeitar simultaneamente o seu crer e o querer do público - caso cada vez mais raro nos dias que correm... E fico a pensar na conversa que tive com o Fish (numa entrevista que o "Se7e" publicará brevemente) e no que ele me disse dos Marillion: "Somos a maior banda 'underground' da Europa". E se fossem mesmo?
artigo submetido por Jorge Blanch
transcrição de José Carlos Maltez


Última actualização: 27 de Junho de 2011
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