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Duas horas de música e quatro mil
aos pulos - os Marillion excederam todas as expectativas,
anulando os espectros de passado (leia-se "a história
doe Genesis") e conseguindo um concerto que só
é possível com uma banda na curva ascendente.
Alguém duvida?
Poucos terão sido os grupos que até hoje passaram
por Portugal a dispôr de um público tão
animado mas, ao mesmo tempo, tão conhecedor da obra
"em expossição" - com os Marillion,
o título da canção ou os seus primeiros
acordes chegaram ao "povo" para recuperar o entusiasmo
adormecido desde... o fim do tema anterior.
Essa foi possivelmente a primeira grande surpresa de Fish,
mais de metro e noventa de tamanho, com o concerto português:
no final de "Assassing" cantada a plenos pulmões
pelos quatro mil que lotavam até "ao inferno"
o Pavilhão de Belém, o concerto estava ganho.
Restava saber como reagiriam os saltitantes aos momentos mais
moderados no andamento, às passagens com que os Marillion
iriam recuperar a "filigrana" sonora de outros tempos
(Genesis infalivelmente).
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Mas "Cinderella Search" e "Jester's
Tear" fecharam a questão, uma vez que a segunda
figura de grupo, o provável autor de grande parte das
melodias, o guitarrista Steve Rothery, também caiu
nas boas graças do público. E fez questão
de mostrar o seu jogo de mãos, quase sem pedais, ao
longo de todo o concerto, mantendo inevitáveis diálogos
com as teclas de Mark Kelly e deixando o ritmo a Pete Trewavas
(baixo) e a bateria de Ian Mosley, um supercraque do género.
"Quem me dá um cigarro"
Não espantou por isso o acompanhamento
prestado a "Punch & Judy" - o primeiro "hit-single"
da banda - e, de imediato, a "Jigsaw", ainda e sempre
uma grande canção. Fish corria todo o palco,
fazia o jogo de pernas de um qualquer "boxeur",
recuperava a linguagem cénica da geração
perdida, simulando arrancar o coração e atirá-lo
na direcção da participativa audiência.
Depois de "Emerald Lies", outro pequeno show de
Mark Kelly, Fish chegou mesmo a virar-se para a frente do
palco, pedindo: "Could I possibly have a cigarette?"
Deu para escolher e para ganhar balanço, antes de entrar
na prova final: a "première" de metade do
novo album, de seguida e sem tempos mortos. "Misplaced
Childhood" é no dizer dos seus próprios
autores, um "concept" para os anos 80 e foi "arriscado"
em Belém - se bem que contando com o trunfo "Kayleigh",
o novíssimo single que está em segundo lugar
em Inglaterra, a "suíte" resistiu perfeitamente
aos apetites rítmicos de um sector do público.
E ficou a vontade de conhecer o LP, lá isso ficou...
a julgar pela amostra.
"Grand finale"
Bom, os testes estavam todos feitos: os
Marillion tinham conseguido sobreviver aos vários espectros
do passado, tinham mostrado a apetência de um espectáculo
que fizesse da técnica aquilo que ela é realmente
(um auxiliar...), tinham exibido um querer e um sentido de
palco que ainda chegam para distinguir os que começam
e não sabem, os que começam e já sabem
o que sentem, e os que já acabaram e não deram
por isso. Tinha sido um espectáculo a cem por cento,
sem truques de "truta"...
Restava então a componente do prazer, faltava perceber
se o grupo de Fish teria ou não a sensibilidade para
chegar aos "brindes" que toda a gente queria. Até
à primeira saída de palco, "Incubus"
e "Fugazi" serviram para aquecer ainda mais os ânimos,
todos virados para o que se ambicionava ser uma "história
interminável".
O primeiro encore foi o melhor momento da noite, pelo texto,
um dos grandes poemas do desespero dos 20 anos, por muito
que isso custe a alguns cultivadores do "livro único"
- e pelo contexto - Fish encena o papel de um jovem combatente,
erguendo o pé do microfone como uma metralhadora e
"disparando" ao compasso da bateria, "Forgotten
Sons" é, como já aqui se tinha escrito,
uma pequena ou média "declaração
de voto", superada em palco... E chegou o "grand
finale": após novo abandono, "Garden Party"
e "Market Square Heroes" (as últimas são
as primeiras...) mais não fizeram do que confirmar
que não havia só competência e "savoir-faire",
que há nos Marillion uma alma e, acima de tudo, que
não é o público dos 30 anos (o famigerado
"público dos Genesis"...) que acredita neste
grupo. E que o vai ver assim, "com o risco da própria
vida"...
Para uns, terá ficado a imagem de "uma banda de
heavy-metal com algumas possibilidades". Para outros,
"um pastiche dos Genesis levado às últimas
consequências". Por mim devo confessar que os Marillion
teriam seido uma grande e grata surpresa, se não conhecesse
os seus discos.
Do concerto vale a pena reter que não houve "pastilhas"
nem "pastéis", que o grupo conseguiu respeitar
simultaneamente o seu crer e o querer do público -
caso cada vez mais raro nos dias que correm... E fico a pensar
na conversa que tive com o Fish (numa entrevista que o "Se7e"
publicará brevemente) e no que ele me disse dos Marillion:
"Somos a maior banda 'underground' da Europa". E
se fossem mesmo?
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