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Marillion satisfeitos e mais
maduros
Vinte minutos extra com
Rothery e Hogarth: "Fish saíu por falta de química"
Textos de João Portela,
Fotos de Pedro Silva
Capital, 4 de Novembro de 1991
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Os Marillion "pularam" até
fartar durante o concerto, numa "endurance" de duas
horas, um esforço mais que suficiente para evitar qualquer
posterior contacto com a imprensa. Ainda assim e apesar do
cansaço estampado nos rostos, os dois "Steves",
o Rotherty e o Hogarth (com este a "cantarolar"
um clássico dos The Beatles a caminho da entrevista),
arranjaram um extra de vinte minutos para nos receber. A atitude
ficou registada e passível de ser tomada como exemplo
para muitos "mini-stars" (em termos de suporte de
público) que nos visitam.
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Os Marillion regressaram a Portugal seis
anos depois da sua passagem pelo Pavilhão do Restelo.
Rezam as crónicas que a desilusão preencheu
o saldo final, facto que associado à saída de
Fish, terá justificado a fraca comparência para
esta "remake".
"Há pessoas que se esquecem que todas as bandas
mudam e ainda esperam escutar temas como "Grendel",
que já não tocamos há sete anos",
começou por nos afirmar o guitarrista Steve Rothery
que prosseguiu: "Eu próprio já me afastei
dessa fase, mas compreendo essas pessoas. Penso que estiveram
cá muitos dos simpatizantes que se fizeram sentir quando
tocámos "Garden Party" do nosso primeiro
álbum. Presente nos dois concertos, Rothery preferiu
o do passado sábado, segundo fez questão de
acentuar:
"Gostei deste espectáculo e preferi-o relativamente
à nossa primeira visita a Portugal. Acima de tudo,
agradou-me o facto de quem cá esteve ter saído
satisfeito. O necessário é ser-se sincero, honesto
com tudo aquilo que se faz e, sendo assim, as coisas acabam
por correr sempre bem."
"Uma química
especial"
Fish, é ainda um assunto quente na gramática
do grupo. Tal como se esperava, a questão do seu abandono
ocupou grande parte das conversas de corredor entre os "fãs"
(esta doi a índole do público presente) empurrando-nos
para a controvérsia óbvia:
"Queríamos ter uma química especial e Fish
saiu porque lhe faltava, o que nós pretendíamos
não a tinha. Com a entrada do Steve (Hogarth), para
além da conquista dessa química, ganhámos
um novo instrumentalista, uma vez que ele também toca
teclas e compõe. Agora a nossa música tem mais
espaço, respira-se melhor nela, se a compararmos com
a fase anterior", observou ainda Steve Rothery.
"Convém ainda referir que hoje estamos mais maduros
e consequentemente, mais evoluídos sob o ponto de vista
técnico".
Apesar de tudo, insistimos: Mas porque razão saiu o
Fish?
"Basicamente, o seu abandono deveu-se ao choque de personalidades
que se estabeleceu entre ele e o resto da banda, conduzindo
a uma inevitável deterioração das nossa
relações. Passámos então a precisar
de um novo vocalista e depois de escutarmos uma "demo-tape"
do Steve, decidimos que ele era a pessoa que procurávamos"
respondeu Rothery.
Como os U2 e os
Stones
Os Marillion estão de facto muito diferentes, ao ponto
de alguém poder reduzir toda a condução
musical à simples troca verificada, remetendo o resto
do grupo para um plano secundário.
"Muitas pessoas esquecem que Fish só escrevia
e não compunha, julgando erradamente que ele era a
força que suportava a banda. Ora, tal não era
verdade e a prova disso é o facto de termos continuado
sem ele e de hoje estarmos aqui" rectificou Rothery dando
a deixa ao vocalista Hogarth:
"A minha entrada constituiu um grande contributo para
a banda, pois além de escrever e cantar, também
componho e toco teclas, coisas que o Fish não fazia.
E, claro, trouxe ideias novas para o grupo.
"Quanto ao papel secundário do resto da banda
- continuou Hogarth - isso nõ é verdade, já
que eles sempre foram e ainda são os compositores do
som Marillion. Eu apenas me limitei a ser a um acréscimo
e mais nada. Se reparares esta é, aliás, a característica
de todas as grandes bandas do mundo. Em grupos como os U2
e os Rolling Stones verifica-se que a par ta dupla principal
que compõe, roda todo o colectivo que participa no
som final."
Liricamente menos
pretensiosos
Voltámos a insistir nas diferenças, até
porque são estas que nos conduzem à percepção
do momento actual.
"Creio que musicalmente não estamos assim tão
diferentes" tetorqui Rothery. "Seguimos apenas uma
linha de evolução, pois não podíamos
ficar eternamente agarrados ao passado. Ao nível das
letras é que reconheço as mudanças, mas
isso é óbvio, uma vez que é outra personalidade
que as assina. Actualmente, estamos menos pretenciosos nesse
aspecto."
O desabafo de Rothery é capaz de ferir muitas susceptibilidades
no seio da velha guarda dos seus fanáticos. Uma coisa,
no entanto, é certa, a sua mensagem é notoriamente
menos intensa. Hogarth, oportuno, pegou na deixa:
"Concordo. Liricamente, podemos estar menos intensos
e como disse o Rothery, estamos também menos pretensiosos.
Trocámos isso por um reforço na pujança
do nosso som, sem no entanto, termos alterado termos alterado
a mensagem, já que esta é particularizável
por cada composição individual e, a esse nível,
encontras várias mensagens atípicas".
Prejuízo
de 6.000 dólares nos EUA
Com "Holidays in Eden", os Marillion apostaram forte
no lado da produção, insuflando-lhe doses maciças
de "punch" e tornando-a mais eloquente, bem ao gosto
do americano médio consumidor de "soft FM".
Dado que nunca conseguiram conquistar a América, perguntámos
se terá sido este um "tour de force" intencional
nesse sentido?
"Nós temos conhecido grandes problemas com o mercado
americano e inclusive, a última "tournée"
que lá fizemos deu-nos um prejuízo de 6000 dólares.
De qualquer modo, esse nunca foi um propósito da banda.
Se algum dia conquistarmos os EUA será expontaneamente",
dedendeu Hogarth.
A conversa já ia longa e o Bairro Alto esperava-os.
Pelo caminho, referiram ainda que esta era a primeira data
da actual digressão europeia que será estendida
, em meados de 92, ao circuito americano, e prometeram novo
regresso a Portugal. Pode ser que à terceira seja de
vez.
Concerto de banda em pós-mutilação
Recordações
e solos entusiasmam 1500
Os Marillion regressaram a Lisboa seis
anos depois, para mostrar aos seus curiosos seguidores em
que estado se encontra uma das grandes bandas de culto da
década passada, numa radiografia atempada pós-mutilação.
A questão Marillion é, contudo, extremamente
engraçada. A saída de Fish dividiu ao meio o
legado da banda. gerando entre as duas facções,
uma polémica relativa à legitimidade da representação
desse culto. Uns acompanharam Fish e quando este visitou Portugal
em 89 (espectáculo no cinema Alvalade), foram a correr
para lhe testemunharem a sua solidariedade irredutível.
Os outros, esperaram dois anos para retribuir a Steve Rothery
e companhia a sua fidelidade de sempre.
Apesar do Pavilhão Carlos Lopes não ser, como
se sabe, uma sala de grande lotação e por isso
se apresentar como o ideal para um teste arriscado com os
novos Marillion, a única forma de descrever o seu ambiente
no sábado à noite é enviá-lo direitinho
para o efeito do disfarçe, tentado por uma plateia
calculada em 1500 pagantes dispersos por toda a nave e bancadas.
Mesmo assim, a imensidão de clareiras demonstrou que
o nível de comparência situou-se abaixo das expectativas.
Em causa, estava uma semilenda para muitos dos nossos "rockeiros".
Os que por lá apareceram confirmaram a especificidade
do êxito da banda junto de núcleos etários
bem determinados (a geração que acompanhou os
Genesis em 70 e que hoje os recorda em versão deteriorada)
e das franjas suburbanas de Lisboa, numa amostra reduzida
da enchente que vai invadir Alvalade para ver Bryan Adams.
Hogarth imita Fish
Hogarth entrou de sobretudo e luvas brancas, com um atraso
de meia hora sobre a hora prevista (21 e 30), abriu os braços
e tomou uma casa que, por momentos, gostaria de o ter confundido
com Fish. "The show was about to begin".
Abriram com "No One Can" [de facto foi "Splintering
Heart" - Ed.] (de "Holidays in Eden") e
avisaram os presentes que se preparassem para a tónica
da noite: a produção mais recente do grupo.
Voltaram depois atrás. Executaram "Garden Party"
do seu primeiro álbum, o razoável "Script
for a Jester's Tear" e perceberam logo aí, por
que razão tinham à sua frente aquela gente.
Mares de palmas e mímicas intermináveis de guitarra,
espelhavam bem a carga pesada de nostalgia que se abateu sobre
o pavilhão. No palco, o tema era executato ao milímetro
em relação ao original, com Hogarth inclusive,
a tentar a imitação aproximada ao timbre característico
de Fish. Falta-lhe o carisma do "matulão",
mas quem virou as costas ao palco, ajudado por uma tantas
cervejas, podia até ouvir o clássico (para o
grupo) sem rancores.
Hogarth é em tudo uma redução à
escala, relativamente a Fish. Este é alto (Hogarth
é bastante baixo, comparativamente à falsa estatura
que os vídeos impingem), barrigudo, canta melhor e
sabe, quando quer, personificar o papel de "dominador"
de plateias. Hogarth tentou seguir-lhe as pisadas, revelou
uma pose de "rocker" mito, mas não convence.
O público adorou, mas, diga-se de passagem, que já
estava por tudo. Só exigia a imitação
aproximada.
Clássicos
antigos para o final
Os Marillion arrancaram depois para hora e meia de "Holidays
in Eden", "Seasons End" e "Clutching at
Straws" (o último trabalho da fase Fish), fazendo
desfilar em ritmos constante e monótono (de tema para
tema não se sentia qualquer diferença), todos
os trunfos que tinham na manga para evitar a recorrência
aos primeiros trabalhos.
Escutou-se "Cover My Eyes (Pain and Heaven)", "Hooks
in You" "The Time of the Night (The Short Straw)"
[aliás "Lords of the Backstage - Ed.] e
"Just for the Record" [de facto "Slaìnte
Mhath" - Ed.] , entre outros, sempre sob a mesma batida
dolente, usos infinitos de "delay", uma batida fortemente
amplificada, um fartote de solos tecnicistas e um vocal consentâneo
com a procura da última epicidade.
Aliás, 90 por cento dos presentes não estava
ali para outra coisa e juntava o segmeno de todos aqueles
que sobrevivem no fascínio do conceito de "solo
de guitarra".
Para o "encore", reservaram a nata "must",
com "Kayleigh" e "Incommunicado" a fazerem
as delícias de uma audiência em plena euforia.
No ar, ficou a ideia de um "concerto líquido",
isto é quem pagou o bilhete adorou, adorou. Foram poucos,
mas bons.
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artigo submetido por Mónica
Guerra Leiria
transcrição de José Carlos Maltez
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